A Atenção Primária à Saúde estabelece-se como a principal porta de entrada e o centro articulador da rede de cuidados no Sistema Único de Saúde. No âmbito da Estratégia Saúde da FamÃlia, a atuação interprofissional desempenha papel determinante na garantia da equidade e da universalidade do acesso à s ações de promoção, prevenção e reabilitação da saúde. O trabalho desenvolvido pelas equipes de saúde no território ultrapassa os limites fÃsicos das Unidades Básicas de Saúde, alcançando os domicÃlios e permitindo uma compreensão aprofundada dos determinantes sociais que impactam diretamente a qualidade de vida da população assistida.
A integração do cirurgião-dentista e do agente comunitário de saúde no ambiente familiar reflete a consolidação da PolÃtica Nacional de Saúde Bucal, conhecida como Brasil Sorridente. Essa abordagem conjunta possibilita a identificação precoce de patologias bucais, a avaliação das condições epidemiológicas e sociodemográficas locais, além do estabelecimento de vÃnculos afetivos e terapêuticos com as famÃlias. Ao adentrar o espaço domiciliar, as equipes vivenciam a realidade concreta dos usuários, o que favorece a elaboração de planos terapêuticos singulares mais alinhados à s necessidades subjetivas e contextuais de cada indivÃduo.
As visitas domiciliares interprofissionais constituem uma ferramenta metodológica crucial para a superação do modelo biologicista e fragmentado de atenção. A presença conjunta de profissionais da Odontologia e agentes comunitários potencializa a identificação de vulnerabilidades sociais, maus hábitos de higiene, uso inadequado de próteses, lesões de mucosa e barreiras de acesso aos serviços de saúde. Essa prática pedagógica e assistencial compartilhada fortalece o letramento em saúde da comunidade, promovendo a autonomia dos sujeitos no autocuidado e desmistificando o atendimento odontológico, historicamente associado a processos dolorosos e mutiladores.
O impacto dessas intervenções territoriais estende-se à reorganização do processo de trabalho e ao fortalecimento da vigilância em saúde. A longitudinalidade do cuidado consolida-se à medida que o acompanhamento sistemático reduz os Ãndices de urgências odontológicas e amplia a cobertura preventiva. A análise crÃtica do cenário nacional evidencia que, embora existam avanços significativos no financiamento e na expansão das Equipas de Saúde Bucal, persistem desafios estruturais relacionados à s desigualdades regionais e à necessidade contÃnua de capacitação para a atuação interdisciplinar. O investimento contÃnuo na territorialização e na busca ativa permanece, portanto, como o caminho indispensável para garantir o direito fundamental à saúde bucal e a integralidade do cuidado na saúde pública brasileira.