A atenção à saúde da criança no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS) no Brasil é historicamente pautada pelo acompanhamento do crescimento e desenvolvimento, pela imunização e pela prevenção de doenças transmissíveis e crônicas na infância. Todavia, a análise minuciosa da micropolítica do cuidado nas Unidades de Saúde da Família (USF) revela uma lacuna estrutural persistente: a invisibilização da saúde física e mental dos cuidadores primários, em sua esmagadora maioria mulheres, mães e avós. O paradigma assistencial que isola o binômio mãe-filho frequentemente restringe o olhar clínico à criança, tratando quem cuida apenas como um recurso instrumental de execução das orientações de saúde, e não como um sujeito de direitos que necessita de suporte biopsicossocial. Cuidar das crianças também é apoiar quem cuida, uma premissa que exige a reconfiguração dos processos de trabalho da Estratégia Saúde da Família (ESF) para incorporar a saúde do cuidador como determinante fundamental da saúde infantil.
A sobrecarga associada ao ato de cuidar manifesta-se em múltiplas dimensões e é amplificada pelos determinantes sociais da saúde que incidem sobre os territórios de maior vulnerabilidade socioeconômica. A literatura científica demonstra que o estresse crônico vivenciado por mães e cuidadores sem rede de apoio socioafetiva ou institucional eleva significativamente os níveis de cortisol circulante, favorecendo o desenvolvimento de transtornos ansiosos e depressivos, como a depressão pós-parto e a síndrome de burnout parental. A deterioração da saúde mental de quem cuida impacta diretamente a qualidade do vínculo responsivo e o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança nos primeiros anos de vida, momento crucial de plasticidade cerebral. Quando a equipe de saúde falha em acolher o sofrimento psíquico da mulher-mãe, estabelece-se um ciclo vicioso em que a exaustão materna compromete a adesão aos esquemas vacinais, à amamentação exclusiva e às consultas de puericultura, sobrecarregando ainda mais os serviços de saúde no futuro.
A transição para um modelo de cuidado integral exige que as equipes multiprofissionais de saúde da família superem a abordagem prescritiva e fiscalizatória que culturalmente recai sobre as famílias. No cotidiano das consultas e das visitas domiciliares, a identificação precoce dos sinais de esgotamento físico e emocional deve ser integrada às rotinas de atendimento pela aplicação de escuta qualificada e ferramentas interprofissionais. A construção de Projetos Terapêuticos Singulares (PTS) que prevejam o compartilhamento das responsabilidades do cuidado entre a família, a comunidade e o Estado consolida-se como uma tecnologia leve de altíssima resolutividade. Além disso, o fortalecimento de grupos operacionais de apoio mútuo no território e a articulação intersetorial com a assistência social e a educação infantil oferecem o suporte infraestrutural e relacional necessário para desonerar as famílias, garantindo que o ato de cuidar não se traduza em adoecimento e isolamento social.
A análise crítica dos impactos dessa virada paradigmática na saúde pública brasileira aponta para a urgência de institucionalizar políticas públicas de cuidado que reconheçam o trabalho reprodutivo e de assistência infantil como questão de saúde coletiva e equidade de gênero. Enquanto as diretrizes da Atenção Primária continuarem a exigir o cumprimento de metas de cobertura vacinal e acompanhamento nutricional sem garantir retaguarda de suporte psicoemocional e infraestrutura comunitária para os cuidadores, o SUS permanecerá perpetuando a overburden feminina sob o disfarce da promoção da saúde. Investir na saúde física, mental e social de quem cuida não representa um custo assistencial adicional, mas a estratégia de maior custo-efetividade para assegurar a sustentabilidade das redes de atenção, a redução das desigualdades estruturais e o desenvolvimento pleno das futuras gerações.