A prevalência do Diabetes Mellitus no Brasil configura um dos maiores desafios epidemiológicos para o Sistema Único de Saúde, exigindo que a Atenção Primária à Saúde atue com alta resolutividade e capacidade proativa na prevenção de complicações crônicas. Dentre as repercussões sistêmicas mais devastadoras da hiperglicemia sustentada, a neuropatia periférica e a vasculopatia periférica culminam no desenvolvimento do pé diabético, uma condição ulcerativa que antecede a maioria das amputações não traumáticas de membros inferiores no país. Diante desse cenário, a atuação das equipes de saúde da família não pode limitar-se à demanda espontânea no espaço físico das Unidades Básicas de Saúde. A experiência operacional da UBS Jóquei Clube, ao reorientar seus processos de trabalho para a busca ativa territorializada e a avaliação sistemática do pé diabético durante as visitas domiciliares, exemplifica a transição necessária de um modelo reativo para uma práxis vigilante e preventiva.
A fundamentação teórica que orienta o exame clínico do pé diabético apoia-se no rastreamento precoce da perda da sensibilidade protetora e na detecção de alterações estruturais e vasculares no membro inferior. No ambiente domiciliar, o profissional de saúde depara-se com a oportunidade única de avaliar o usuário em seu contexto sociocultural e econômico real, identificando determinantes sociais que frequentemente passam despercebidos na consulta ambulatorial, tais como o uso de calçados inadequados, o hábito de caminhar descalço, a ausência de saneamento básico e as barreiras familiares de autocuidado. A aplicação padronizada de testes de sensibilidade tátil com o monofilamento de Semmes-Weinstein de 10 gramas, associada à verificação da sensibilidade vibratória por meio do diapasão de 128 Hz e à palpação dos pulsos pedioso e tibial posterior, permite classificar o risco ulcerogênico em estratos bem definidos, norteando a periodicidade dos reatendimentos e a necessidade de encaminhamento prioritário para a atenção especializada.
A transição de uma conduta meramente diagnóstica para uma intervenção efetiva exige que a equipe multiprofissional articule o conhecimento técnico à educação em saúde centrada no usuário e em sua rede de apoio familiar. A visita domiciliar promovida pela equipe da UBS Jóquei Clube potencializa o vínculo terapêutico, permitindo que a orientação sobre a inspeção diária dos pés, a higienização adequada, a hidratação cutânea e o corte correto das unhas seja adaptada à realidade material do lar. Além disso, a presença do Agente Comunitário de Saúde como elo entre o saber técnico e a comunidade garante a continuidade da busca ativa, identificando precocemente pequenos traumas, micoses interdigitais ou calosidades que representam a porta de entrada para infecções graves e osteomielite. A coordenação do cuidado, atributo essencial da Atenção Primária, consolida-se à medida que o acompanhamento continuado no território previne a deterioração clínica e evita internações hospitalares por condições sensíveis à atenção básica.
A análise crítica da busca ativa e da prevenção do pé diabético no cotidiano do SUS revela que a ampliação dessa prática territorializada enfrenta obstáculos estruturais que exigem permanente enfrentamento institucional. A escassez de insumos básicos para a avaliação neurológica e vascular nas unidades de saúde, aliada à sobrecarga das equipes de saúde da família e à alta rotatividade profissional, muitas vezes reduz a visita domiciliar a um evento pontual, comprometendo a longitudinalidade do cuidado. Ademais, a efetividade da prevenção primária no território depende intrinsecamente da integração com a Rede de Atenção à Saúde; de nada adianta a identificação precoce do risco no domicílio se os fluxos de regulação para cirurgia vascular, confecção de órteses ou serviços de curativos complexos forem morosos ou inexistentes. Garantir o financiamento adequado, a formação continuada dos profissionais e a infraestrutura logística na Atenção Primária é o único caminho para transformar o rastreamento do pé diabético em uma política pública contínua, capaz de reduzir substancialmente as taxas de amputação e preservar a autonomia e a dignidade da população assistida.