A busca por estratégias terapêuticas inovadoras no âmbito do Sistema Único de Saúde tem impulsionado a integração de linguagens artísticas e culturais nos processos de cuidado da Atenção Primária à Saúde. O Grupo ExpressArte surge nesse cenário como um dispositivo de intervenção sociocultural e terapêutica voltado à promoção da saúde mental, articulando os princípios da Reforma Psiquiátrica brasileira às diretrizes da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares. A utilização do teatro, da pintura, da música e de outras manifestações expressivas no espaço da Unidade de Saúde da Família visa transcender a abordagem meramente farmacológica e sintomatológica dos transtornos psíquicos. Ao proporcionar um ambiente de livre expressão e criação coletiva, a iniciativa busca ressignificar o sofrimento e restabelecer os laços sociais de indivíduos em situação de vulnerabilidade, alinhando-se às orientações da Organização Mundial da Saúde quanto ao papel das artes na melhoria da saúde e do bem-estar biopsicossocial.
A fundamentação teórica que sustenta a eficácia do Grupo ExpressArte repousa na articulação entre a Nise da Silveira e a pedagogia social do cuidado, em que a atividade artística atua como um catalisador da elaboração psíquica e da ampliação da subjetividade. No cotidiano da Estratégia Saúde da Família, a convivência comunitária mediada pela arte permite a superação do estigma associado ao adoecimento mental, promovendo a autonomia dos sujeitos e o exercício pleno da cidadania. As oficinas do Grupo ExpressArte não se configuram como momentos recreativos desprovidos de intenção terapêutica, mas como espaços estruturados de escuta qualificada, elaboração de traumas e fortalecimento do sentimento de pertencimento comunitário. Sob a perspectiva da neurobiologia e da psicologia social, o engajamento criativo contínuo reduz os níveis de estresse e estimula a neuroplasticidade, além de reconfigurar a percepção do usuário sobre sua própria condição de saúde.
A operacionalização dessa tecnologia leve no contexto da Unidade de Saúde da Família exige uma articulação interprofissional rigorosa entre as equipes de Saúde da Família e as ações do Núcleo Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica. O planejamento das encontros do Grupo ExpressArte requer a pactuação de objetivos terapêuticos individuais e coletivos, onde a escuta analítica acompanha o fazer artístico sem reduzi-lo a um diagnóstico patologizante. Durante as sessões expressivas, os participantes manifestam conflitos profundos e experiências de desafeto que muitas vezes não encontram espaço na consulta clínica convencional. A mediação técnica qualificada permite que tais produções simbólicas sejam transformadas em insumos para a elaboração do Projeto Terapêutico Singular, favorecendo a diminuição das crises agudas e a consequente redução nas taxas de internação psiquiátrica e no uso abusivo de psicofármacos na Atenção Primária.
A avaliação crítica dos impactos do Grupo ExpressArte na saúde pública brasileira revela o imenso potencial transformador das práticas culturais integradas à Atenção Primária à Saúde, mas também expõe os desafios estruturais para sua sustentabilidade. A manutenção contínua dessas iniciativas enfrenta frequentemente barreiras relacionadas à escassez de insumos materiais, à ausência de espaços físicos adequados nas unidades de saúde e à rotatividade dos profissionais da rede pública. Além disso, persiste no cenário institucional a tendência de subestimar intervenções não farmacológicas em detrimento de abordagens centradas no modelo biomédico tradicional. Fortalecer o Grupo ExpressArte e institucionalizar as artes como estratégia permanente no Sistema Único de Saúde é um passo indispensável para consolidar um modelo de atenção psicossocial efetivamente humanizado, capaz de responder à complexidade do sofrimento humano e de garantir a equidade na promoção da saúde coletiva.