A garantia do acesso universal e equânime às ações de saúde
representa um dos pilares fundamentais do Sistema Único de Saúde (SUS),
especialmente no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS). Contudo, a
efetivação desses princípios enfrenta desafios cotidianos quando voltada a
indivíduos com limitação severa de mobilidade, temporária ou permanente, que se
encontram impossibilitados de deslocar-se até os serviços tradicionais. Nesse
cenário, a assistência à saúde bucal direcionada a pacientes acamados surge não
como uma concessão ou serviço acessório, mas como elemento indissociável da
atenção integral e da manutenção da qualidade de vida. A experiência conduzida
pela Unidade Básica de Saúde (UBS) Jóquei Clube no atendimento odontológico
domiciliar exemplifica a operacionalização dessa diretriz no cotidiano da
Estratégia Saúde da Família, superando barreiras geográficas e arquitetônicas
para estender o cuidado em saúde bucal ao ambiente privado do usuário.
A necessidade de
descentralização e flexibilização do local de atendimento odontológico
fundamenta-se nas evidências epidemiológicas que associam a saúde bucal precária
ao agravamento de diversas condições sistêmicas. Em pacientes restritos ao
leito, a higienização bucal deficiente favorece o acúmulo de biofilme
patogênico e a proliferação bacteriana na orofaringe, fator decisivo para o
desenvolvimento de pneumonias aspirativas, infecção de alta morbimortalidade
nessa população. Ademais, processos infecciosos crônicos ou focos de dor
decorrentes de lesões cariosas e periodontites descompensam quadros sistêmicos
de base, como o diabetes mellitus e doenças cardiovasculares, exacerbando a
fragilidade clínica do indivíduo (BRASIL, 2018). O atendimento domiciliar
prestado pela equipe da UBS Jóquei Clube atua diretamente na mitigação desses
riscos, integrando o cirurgião-dentista e o auxiliar de saúde bucal à dinâmica
de visitas da equipe multidisciplinar de saúde da família.
A execução do
procedimento no domicílio exige a adaptação da prática clínica e o domínio de
metodologias específicas por parte dos profissionais. Diferente do ambiente de
consultório equipado com cadeira odontológica e sistemas de aspiração fixos, a
intervenção domiciliar demanda o manuseio de equipamentos portáteis,
biossegurança rigorosa e adequação ergométrica à postura do paciente no
leito. A abordagem engloba desde ações preventivas e orientações aos cuidadores
e familiares sobre a higiene oral adaptada até procedimentos curativos de baixa
e média complexidade, como adequação do meio bucal, remoção de focos
infecciosos, alívio de quadros álgicos e confecção ou ajuste de próteses (SOUZA
et al., 2021). Essa intervenção multidisciplinar fortalece o vínculo entre o
serviço público e a comunidade, além de capacitar a rede de apoio do paciente
acamado para a manutenção diária dos cuidados.
Sob a ótica da
saúde pública brasileira, as ações de atendimento odontológico domiciliar, como
a promovida pela UBS Jóquei Clube, revelam os avanços e os gargalos ainda
existentes na consolidação das políticas de humanização e equidade do SUS. Se
por um lado a prática demonstra a capacidade de resposta da Atenção Primária no
acolhimento de populações vulnerabilizadas, por outro expõe a necessidade
premente de investimentos contínuos em infraestrutura tecnológica apropriada,
insumos portáteis e qualificação profissional contínua. A ampliação sustentável
dessas iniciativas constitui um passo decisivo para desconstruir o modelo
hospitalocêntrico e cirúrgico-restaurador histórico da odontologia,
consolidando um panorama em que o cuidado em saúde bucal seja verdadeiramente
transversal, inclusivo e garantido em todas as fases e condições da vida
humana.