A consolidação da Atenção Primária à Saúde (APS) no Brasil
apoia-se no desafio contínuo de transcender a prática biomédica tradicional,
frequentemente restrita ao diagnóstico e ao tratamento curativo de enfermidades
já instaladas. Na perspectiva da Estratégia Saúde da Família (ESF), a promoção
da saúde exige a implementação de arranjos assistenciais que integrem a
prevenção de agravos crônicos ao fortalecimento dos laços comunitários e ao
cuidado em saúde mental. Nesse horizonte, a iniciativa do Grupo Caminha SUS
destaca-se como um dispositivo de intervenção territorial que alia a prática
sistemática de atividade física à socialização, ao apoio psicossocial e à
produção de vínculos. A atuação sinérgica dos agentes comunitários de saúde
Renato e Igor em conjunto com a psicóloga residente Lydiane exemplifica a operacionalização
do trabalho multiprofissional e intersetorial no cotidiano das Unidades Básicas
de Saúde, transformando a rotina semanal de encontros em uma tecnologia leve de
cuidado integral.
A fundamentação teórica que sustenta a criação de grupos de
caminhada orientada no âmbito da saúde pública baseia-se na robusta produção
científica sobre os benefícios fisiológicos e psíquicos da atividade física
regular. A prática continuada de exercícios aeróbicos atua de forma direta na
modulação neuroendócrina, promovendo a liberação de neurotransmissores como
endorfinas e serotonina, associados à redução dos sintomas de ansiedade,
depressão e estresse crônico. Paralelamente, no plano metabólico e
cardiovascular, o estímulo motor semanal auxilia no controle da pressão
arterial, na melhoria da sensibilidade à insulina e no combate ao sedentarismo,
um dos principais fatores de risco modificáveis para Doenças Crônicas Não
Transmissíveis (DCNT). Contudo, o diferencial analítico do Grupo Caminha SUS reside
na ressignificação do espaço público: a caminhada deixa de ser um ato isolado
de prescrição médica para se constituir como um espaço comunitário de escuta
qualificada e troca de experiências afetivas.
A dinâmica de realização do grupo, ocorrendo pontualmente às
quartas-feiras, demanda um planejamento interdisciplinar rigoroso, no qual cada
profissional desempenha um papel estratégico na mediação das relações no
território. A presença dos agentes comunitários de saúde Renato e Igor assegura
o enraizamento da proposta na vida comunitária, uma vez que o conhecimento
profundo das rotinas, dos itinerários terapêuticos e das fragilidades
socioeconômicas dos moradores permite a identificação e a busca ativa de
indivíduos em situação de isolamento social ou sofrimento psíquico leve a
moderado. Por sua vez, a inserção da psicóloga residente Lydiane introduz um
olhar especializado para a dimensão subjetiva do movimento e do encontro.
Durante os percursos e nos momentos de acolhimento que antecedem ou sucedem a
atividade motora, a mediação da psicologia favorece a emergência de relatos de
vida, a elaboração de lutos e a construção de estratégias coletivas de
enfrentamento das adversidades cotidianas, operando na lógica da redução de
danos e da desmedicalização da vida.
Sob a ótica da saúde pública e da gestão do cuidado no SUS,
experiências como o Grupo Caminha SUS evidenciam a potência do trabalho em rede
e a relevância das residências em saúde no aprimoramento das práticas
profissionais. A sustentação de ações grupais territoriais demonstra que a
promoção da saúde não requer obrigatoriamente estruturas de alta densidade
tecnológica, mas sim o investimento continuado em tecnologias relacionais e na
valorização das equipes locais. A continuidade dessas intervenções semanais
atua como um potente fator de proteção social, reduzindo a demanda por
consultas médicas desnecessárias e atenuando o uso indiscriminado de
psicofármacos na Atenção Primária. Investir no fortalecimento, na
infraestrutura e na qualificação de espaços comunitários de promoção da saúde
constitui uma medida indispensável para a consolidação de um modelo sanitário
verdadeiramente preventivo, humano e alinhado aos princípios da equidade e da
integralidade.