A integração de saberes especializados no âmbito da Atenção Primária à Saúde representa um dos pilares estratégicos para a consolidação da integralidade no Sistema Único de Saúde. Diante da crescente complexidade das demandas relativas à saúde mental e às alterações neurocognitivas na população atendida pela Estratégia Saúde da Família, a capacitação contínua das equipes multiprofissionais torna-se uma exigência ética e operacional. A realização do Canal Teórico com o psicólogo clínico Carlos Henrique Ribeiro, mestre em Ensino em Saúde pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul e especialista em Neuropsicologia, trouxe à tona a urgência de qualificar o olhar da atenção básica para o rastreio, a identificação precoce e o manejo de transtornos neurodesenvolvimentais e neurodegenerativos no território comunitário.
A inserção da neuropsicologia no cotidiano da Atenção Primária à Saúde amplia o escopo de atuação dos profissionais ao conectar o funcionamento cerebral às condições socioemocionais e comportamentais dos indivíduos. Historicamente, a avaliação neuropsicológica esteve restrita a centros de média e alta complexidade, o que gerava gargalos assistenciais e atrasos diagnósticos significativos. No entanto, a literatura científica demonstra que a incorporação de referenciais teórico-práticos da neuropsicologia pelas equipes de Saúde da Família potencializa o acolhimento, otimiza o encaminhamento para a atenção especializada e reduz intervenções farmacológicas inadequadas. Conforme destacam Santos e colaboradores, a compreensão dos processos cognitivos — como atenção, memória, linguagem e funções executivas — permite que a equipe elabore Planos Terapêuticos Singulares mais condizentes com a realidade e a capacidade funcional do paciente.
No contexto da Saúde da Família, a articulação entre os conhecimentos teóricos apresentados no evento e a prática clínica diária reveste-se de relevância ao considerar o envelhecimento populacional acelerado e o aumento da prevalência de condições como o Transtorno do Espectro Autista e o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. O domínio de conceitos fundamentais da avaliação neurocognitiva habilita os profissionais a distinguirem declínios cognitivos fisiológicos do envelhecimento daqueles resultantes de processos demenciais incipientes, como a doença de Alzheimer. De forma similar, na saúde da criança, o rastreio qualificado evita a rotulação indevida de dificuldades de aprendizagem decorrentes de vulnerabilidades sociais, direcionando o cuidado para intervenções precoces e estimulação cognitiva no próprio território.
A análise crítica sobre o impacto da neuropsicologia na saúde pública brasileira revela que a democratização desse conhecimento constitui um passo fundamental para mitigar as iniquidades no acesso à saúde mental no SUS. O fortalecimento de canais de educação permanente que aproximem mestres, especialistas e trabalhadores da ponta fortalece a autonomia das equipes e consolida a atenção básica como centro articulador das Redes de Atenção à Saúde. Contudo, a efetiva incorporação dessas práticas exige das gestões municipais o compromisso contínuo com a oferta de insumos, a manutenção do tempo pedagógico no processo de trabalho e a estruturação de fluxos de referência céleres. A qualificação do cuidado em saúde mental fundamentada na neuropsicologia permanece, portanto, como um vetor indispensável para a promoção da equidade e para o exercício pleno do direito à saúde no Brasil.