O acesso universal e igualitário aos serviços de saúde, preceito fundamental do Sistema Único de Saúde (SUS) garantido pela Constituição Federal de 1988, enfrenta barreiras invisíveis que vão além do desabastecimento de insumos ou do déficit de infraestrutura física. Dentre estas barreiras, o estigma do peso e a gordofobia institucionalizados destacam-se como vetores silenciosos de exclusão e agravamento do quadro clínico da população. O estigma associado ao peso corporal manifesta-se por meio de atitudes pejorativas, preconceitos e estereótipos que atribuem a indivíduos com sobrepeso e obesidade características de preguiça, falta de disciplina ou desinteresse pela própria saúde. Longe de se restringir às interações sociais informais, esse viés penetra a prática clínica e contamina o raciocínio assistencial dos profissionais de saúde, gerando danos severos ao vínculo terapêutico e à longevidade dos cuidados prestados.
A perpetuação da gordofobia nos espaços de saúde produz um impacto direto no comportamento de busca por assistência. Enfrentar ambientes equipados de forma inadequada, tais como manguitos de esfigmomanômetro incapazes de aferir a pressão arterial corretamente, macas com limites de peso insuficientes ou cadeiras de espera desconfortáveis, somado à postura hostil ou moralizante das equipes, incita um processo de esquiva terapêutica. O constrangimento recorrente faz com que o paciente postergue consultas preventivas e o seguimento de rotina, retornando ao sistema apenas em situações de urgência ou quando os agravos já se encontram em estágios avançados e de difícil manejo. Esse ciclo retroalimenta o agravamento de doenças crônicas não transmissíveis, aumentando a morbimortalidade e elevando o custo operacional do próprio sistema de saúde.
A desconstrução dessa lógica exige uma análise crítica sobre os referenciais que regem a formação e a prática médica e multiprofissional. A abordagem hegemônica centralizada puramente no Índice de Massa Corporal (IMC) como marcador definitivo de saúde tem se mostrado insuficiente e reducionista. O Ministério da Saúde, alinhado às diretrizes da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS), defende o modelo de determinação social da saúde, reconhecendo que o peso corporal é influenciado por complexas redes de fatores genéticos, metabólicos, socioeconômicos e ambientais. A insistência na culpabilização individual e na prescrição de dietas restritivas padronizadas sem escuta atenta da realidade do indivíduo desconsidera o conceito de autocuidado apoiado e perpetua o sofrimento psíquico, culminando em transtornos alimentares e ansiedade.
Diante desse panorama, a transformação da Atenção Primária pressupõe a implementação urgente de programas de educação permanente focados na humanização do atendimento e na mitigação dos viéses implícitos de peso nas equipes de saúde da família. O acolhimento humanizado, a adaptação física dos equipamentos das unidades básicas e a adoção de abordagens que priorizem a promoção da saúde de forma neutra ao peso corporal (como a garantia do acesso à atividade física prazerosa e à alimentação adequada sem viés punitivo) são passos indispensáveis para a consolidação de uma práxis médica e multiprofissional ética. Somente ao assegurar que o espaço da Unidade Básica de Saúde seja um território seguro e livre de julgamentos morais será possível garantir a equidade na assistência e honrar o compromisso do SUS de promover a saúde integral para toda a população.