A interface entre as práticas expressivas e o cuidado em saúde mental representa um campo de convergência crucial para a consolidação dos princípios da Reforma Psiquiátrica e da Política Nacional de Atenção Básica no Brasil. Ao longo do desenvolvimento do Sistema Único de Saúde, o modelo biomédico tradicional, marcado pelo foco na medicalização e na fragmentação do sujeito, tem demonstrado limites diante da complexidade dos sofrimentos psíquicos cotidianos manifestados nos territórios vulneráveis. Nesse cenário, a Unidade Básica de Saúde Jóquei Clube promoveu um grupo de práticas manuais, artesanato, pintura e crochê, assumindo a arte como um dispositivo terapêutico e político. A iniciativa não se restringe à ocupação do tempo livre, mas estabelece o fazer artesanal como um instrumento de consciência corporal, presença e escuta ativa, permitindo a reorganização da subjetividade e o fortalecimento de vínculos comunitários essenciais para o bem-estar psicológico.
A fundamentação teórica que ampara o uso de atividades expressivas na Atenção Primária à Saúde encontra eco nas diretrizes da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares e nas produções científicas sobre a Terapia Ocupacional e a Saúde Coletiva. Conforme apontam Amarante e Torre, a inclusão da arte nos espaços de cuidado em saúde mental opera como uma estratégia de desinstitucionalização, deslocando o foco da patologia para a potência criativa do indivíduo. As tarefas manuais executadas sequencialmente, como o ponto do crochê ou a escolha das cores na pintura, demandam um estado de atenção plena e integração psicomotora que favorecem a regulação emocional e a redução dos níveis de ansiedade. O fazer criativo mobiliza funções cognitivas e sensoriais que auxiliam o indivíduo a retomar a percepção sobre seus próprios limites e possibilidades corporais, funcionando como um mediador entre o mundo interno do usuário e a sua realidade social.
A estrutura do grupo operativo conduzido pela equipe de saúde permite que o espaço da oficina se transforme em um canal legítimo de escuta qualificada e acolhimento. Durante o manuseio dos materiais e a criação dos objetos, estabelece-se um ambiente não diretivo, no qual a palavra circula com menor rigidez do que na consulta individual convencional. Conforme destaca a literatura referente ao trabalho com grupos na Estratégia Saúde da Família, a produção artesanal atua como um "objeto intermediário", facilitando a expressão de dores, sentimentos de solidão e conflitos familiares que dificilmente seriam verbalizados de forma direta. A escuta ativa exercida pelos profissionais de saúde nesse contexto viabiliza a identificação precoce de quadros depressivos ou do agravamento de transtornos mentais, além de promover a troca de saberes entre os próprios participantes, os quais ressignificam suas trajetórias de vida ao reconhecerem-se como sujeitos produtivos e capazes de criar arte.
Do ponto de vista da saúde pública e do manejo epidemiológico na Atenção Primária, a ampliação de abordagens não farmacológicas para o sofrimento psíquico brando e moderado constitui uma urgência do sistema de saúde. A hipermedicalização da vida cotidiana, somada ao uso indiscriminado de psicotrópicos, impõe custos elevados ao Estado e gera dependência física e psicológica nos usuários. As evidências científicas compiladas pela Organização Pan-Americana da Saúde indicam que intervenções comunitárias fundamentadas em arte e cultura reduzem a busca desenfreada por consultas médicas de urgência e fortalecem a resiliência comunitária. A experiência desenvolvida na UBS Jóquei Clube demonstra que o investimento na subjetividade e na arte-terapia é uma escolha técnica eficiente e alinhada com os direitos humanos, capaz de impactar diretamente a qualidade de vida da população e a sustentabilidade do SUS.