A complexidade das condições de vida nas periferias urbanas brasileiras exige uma atuação estatal que supere os limites setoriais e promova o cuidado integral em saúde, articulando intervenções diretas nos territórios de maior vulnerabilidade social. O desenvolvimento infantil constitui um período crítico em que exposições a determinantes socioeconômicos desfavoráveis, insegurança alimentar e fragilidades no acesso a serviços básicos podem impactar perpetuamente a trajetória de saúde do indivíduo. Nesse cenário, a Atenção Primária à Saúde (APS), operacionalizada pela Estratégia Saúde da Família (ESF), assume um papel central na identificação precoce de agravos e no acompanhamento contínuo de crianças em situação de acolhimento institucional ou extrema vulnerabilidade. No entanto, a eficácia dessas ações depende intrinsecamente da capacidade de articulação entre diferentes Unidades Básicas de Saúde (UBS) e equipamentos de assistência social, configurando arranjos de cooperação intersetorial e intrassetorial capazes de responder a demandas territoriais complexas.
A recente ação integrada realizada na instituição Casa Criança Feliz, com a convergência das equipes multiprofissionais das UBSs Parque do Lago, Ildefonso Pedroso, Maracanã e Jóquei Clube, exemplifica a aplicação prática do princípio da territorialização e da cooperação em rede no Âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Historicamente, a fragmentação do cuidado em saúde mental, vigilância nutricional e imunização representava um obstáculo para o acompanhamento sistemático de crianças em acolhimento. A teoria da ecologia do desenvolvimento humano proposta por Bronfenbrenner (1979) sustenta que o desenvolvimento e o bem-estar infantil são moldados pelas interações nos microssistemas imediatos como as instituições de acolhimento e pela interconexão desses espaços com as redes formais de suporte social e de saúde. Quando equipes de múltiplas Unidades Básicas de Saúde unificam esforços para atender a uma instituição centralizada, ocorre a quebra de barreiras burocráticas e geográficas, permitindo que a busca ativa, a atualização vacinal e o rastreamento de marcos do desenvolvimento neuropsicomotor sejam executados com maior resolutividade e alcance epidemiológico.
Do ponto de vista científico e metodológico, a vigilância à saúde infantil na Atenção Primária repousa sobre diretrizes bem estabelecidas pelo Ministério da Saúde e pela Organização Pan-Americana da Saúde. A implementação de ações conjuntas possibilita a avaliação multidimensional da saúde da criança, englobando a verificação do estado nutricional por meio do antropometria, a identificação de déficits cognitivos e motores, e a atualização de esquemas vacinais conforme o Calendário Nacional de Imunização. Em contextos institucionais, a concentração de crianças sob o mesmo teto exige um rigor acrescido da vigilância epidemiológica para evitar surtos de Doenças Imunopreveníveis e infecções respiratórias ou gastrointestinais. Ademais, a intervenção multidisciplinar compartilhada entre diferentes áreas de abrangência permite o alinhamento de condutas de saúde mental e odontologia preventiva, mitigando o impacto que o trauma da institucionalização e o afastamento familiar provocam no desenvolvimento neuropsíquico infantil.
A análise crítica das estratégias integradas na Atenção Primária revela que iniciativas como a desenvolvida entre as UBSs Parque do Lago, Ildefonso Pedroso, Maracanã e Jóquei Clube junto à Casa Criança Feliz representam a concretização da equidade e da integralidade, pilares doutrinários do SUS. Contudo, do ponto de vista da gestão de políticas públicas de saúde no Brasil, a dependência de ações pontuais ou mobilizações extraordinárias evidencia os desafios estruturais na manutenção de um fluxo contínuo de matriz intersetorial. Para que a atenção às crianças vulnerabilizadas não fique restrita a eventos esporádicos, é imperativo que os gestores municipais consolidem protocolos permanentes de cooperação intrassetorial, garantindo o financiamento adequado, o provimento contínuo de equipes multiprofissionais e o fortalecimento do e-SUS APS para o compartilhamento dinâmico de prontuários eletrônicos. A transformação sustentável dos indicadores de saúde infantil no país depende do fortalecimento sistemático dessas redes de proteção, assegurando que o direito à saúde e ao desenvolvimento pleno seja garantido como responsabilidade coletiva e prioridade absoluta do Estado.