A inserção da fitoterapia e do uso de plantas medicinais no Sistema Único de Saúde (SUS) representa um avanço estratégico na consolidação de práticas integrativas e complementares, alinhando o conhecimento tradicional às evidências científicas contemporâneas. No cenário nacional, a Atenção Primária à Saúde configura-se como o espaço privilegiado para o desenvolvimento dessas abordagens, que buscam ampliar as opções terapêuticas oferecidas à população e promover a autonomia no cuidado. A validação científica dessas práticas, no entanto, exige o fortalecimento de espaços de debate acadêmico e intercâmbio de experiências entre os serviços de saúde e a comunidade científica. Nesse contexto, as experiências bem-sucedidas desenvolvidas na Unidade Básica de Saúde (UBS) Maracanã, localizada no município de Dourados, ganharam expressivo destaque durante o 23º Workshop de Plantas Medicinais de Mato Grosso do Sul, evento realizado entre os dias 9 e 11 de setembro, em Campo Grande.
A trajetória da fitoterapia na saúde pública brasileira encontra amparo normativo na Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, e na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS. Tais diretrizes governamentais buscam garantir o acesso seguro e o uso racional de plantas medicinais e fitoterápicos, promovendo o uso sustentável da biodiversidade e o desenvolvimento da cadeia produtiva nacional. Conforme apontam pesquisas publicadas na base de dados SciELO, a institucionalização dessas práticas no âmbito da Estratégia Saúde da Família não apenas fortalece a relação terapêutica entre profissionais e usuários, mas também reduz a dependência excessiva de abordagens exclusivamente farmacológicas sintéticas, mitigando riscos de iatrogenias e reações adversas.
O trabalho apresentado pela UBS Maracanã no workshop estadual evidencia a viabilidade da integração entre o saber popular local e o rigor metodológico exigido pela prática clínica embasada em evidências. A experiência desenvolvida em Dourados demonstrou como a horta medicinal comunitária e as oficinas de orientação sobre o preparo correto de chás, infusões e extratos podem ser incorporadas às rotinas de atendimento da Atenção Básica. Sob a perspectiva da vigilância em saúde, a orientação profissional adequada é fundamental para evitar a toxicidade e as interações medicamentosas indesejadas, uma vez que a crença de que compostos naturais não apresentam contraindicações ainda é amplamente difundida entre a população.
A análise dos impactos da fitoterapia no âmbito da saúde pública brasileira revela um cenário promissor, porém repleto de desafios estruturais e conceituais. Embora a inserção de plantas medicinais no SUS seja respaldada por marcos regulatórios consolidados, a plena efetivação dessas práticas enfrenta barreiras como a insuficiência de financiamento específico, a irregularidade no fornecimento de insumos e a carência de formação continuada para as equipes multidisciplinares. A experiência registrada em Mato Grosso do Sul demonstra que a consolidação da fitoterapia exige mais do que iniciativas isoladas; demanda a integração sistemática entre a pesquisa acadêmica, a gestão municipal e a prática comunitária. Somente através do fortalecimento da infraestrutura dos serviços e do rigor técnico no manejo dos recursos fitoterapêuticos será possível assegurar a sustentabilidade e a eficácia dessa modalidade assistencial na rede pública de saúde.