A dinâmica migratória contemporânea reconfigura o perfil demográfico e epidemiológico das cidades brasileiras, impondo ao Sistema Único de Saúde a necessidade de adaptar suas tecnologias de cuidado para acolher populações em situação de vulnerabilidade social e deslocamento forçado. No dia 14 de outubro, a Unidade Básica de Saúde Jóquei Clube sediou a Aula de Núcleo de Nutrição sob a temática “Atenção nutricional à população imigrante na Atenção Primária à Saúde: desafios culturais, sociais e estratégias de cuidado”, momento que fomentou o debate sobre a transição nutricional, a insegurança alimentar e as barreiras de acesso vividas por esses indivíduos. A consolidação da Atenção Primária à Saúde como ordenadora da rede e preceptora do cuidado territorial exige que as equipes de Saúde da Família desenvolvam competências culturais capazes de superar a barreira linguística e o etnocentrismo, reconhecendo a alimentação como um ato complexo que atravessa a identidade, a memória afeto-cultural e a soberania alimentar dos povos.
Do ponto de vista científico e epidemiológico, o processo migratório frequentemente expõe os indivíduos ao estresse aculturativo e à precarização das condições socioeconômicas, fatores que alteram significativamente os padrões de consumo alimentar. A substituição repentina de dietas tradicionais ricas em alimentos in natura e minimamente processados por alimentos de alta densidade calórica e baixo valor nutricional, motivada pelo menor custo e pela facilidade de acesso no país de acolhimento, acelera o surgimento de enfermidades crônicas não transmissíveis, como diabetes mellitus, hipertensão arterial e obesidade. Nesse contexto, a conduta nutricional na Atenção Primária não pode limitar-se à imposição de prescrições dietéticas prescritivas e descontextualizadas; exige-se, em contrapartida, a aplicação de ferramentas de escuta qualificada e o mapeamento dos marcadores de consumo alimentar adaptados às especificidades culturais, garantindo que o plano terapêutico respeite as tradições culinárias e a disponibilidade financeira do usuário.
A efetividade das intervenções nutricionais voltadas aos imigrantes depende diretamente da articulação intersetorial e do fortalecimento das redes de apoio comunitário no âmbito do território. Conforme destacam os referenciais da saúde coletiva, as barreiras burocráticas, a ausência de documentação regular e o desconhecimento sobre o funcionamento do Sistema Único de Saúde muitas vezes afastam essa população dos serviços preventivos, fazendo com que a busca por atendimento ocorra apenas em estágios avançados de agravo à saúde. A iniciativa promovida na UBS Jóquei Clube evidencia o papel estratégico do Núcleo de Nutrição na qualificação das equipes multidisciplinares, capacitando os profissionais para o manejo da neofobia alimentar, a identificação precoce da desnutrição e da fome oculta, e a integração de ações de educação alimentar e nutricional alinhadas aos preceitos da equidade e da universalidade do acesso.
A reflexão crítica sobre a atenção nutricional prestada à população migrante revela que a garantia do direito humano à alimentação adequada constitui um desafio estrutural para as políticas públicas de saúde no Brasil. O avanço da resolutividade na Atenção Primária requer o financiamento contínuo de ações de capacitação profissional, a produção de materiais informativos em múltiplos idiomas e o aprimoramento dos sistemas de informação em saúde para registrar as especificidades dessa população. Ao promover o alinhamento entre a evidência científica, a sensibilidade cultural e a prática assistencial cotidiana, os serviços de saúde não apenas reduzem as iniquidades em saúde, mas também reafirmam o compromisso ético e político do Sistema Único de Saúde com a defesa intransigente da vida e da dignidade humana em todas as suas manifestações.