A mortalidade materna e neonatal permanece como um dos indicadores mais sensíveis da qualidade dos serviços de saúde e das desigualdades socioeconômicas no cenário brasileiro. Para enfrentar essa problemática de maneira estrutural, o Ministério da Saúde reformulou as diretrizes de atenção à gestante e ao recém-nascido ao instituir a Rede Alyne evolução da antiga Rede Cegonha, que busca garantir o acesso, a resolutividade e o cuidado humanizado em todo o itinerário terapêutico da mulher e da criança. No município de Dourados, Mato Grosso do Sul, a operacionalização dessa política ganhou impulso substancial nos meses de setembro e outubro com a realização de um ciclo de visitas técnicas à maternidade do Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados (HU-UFGD). Promovida pela Secretaria Municipal de Saúde (SEMS/Dourados), a iniciativa articulou-se diretamente com a Residência de Enfermagem Obstétrica do HU-UFGD, a Residência de Saúde da Família e a Residência em Medicina de Família e Comunidade da SEMS em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
A articulação entre a gestão municipal e os programas de residência em saúde estabelece um dispositivo estratégico para a consolidação do apoio matricial e da educação permanente nas unidades básicas de saúde. Historicamente, a fragmentação do cuidado entre a Atenção Primária à Saúde (APS) e os serviços hospitalares de alta complexidade figura como um dos principais obstáculos para a continuidade da assistência pré-natal e para a vinculação segura da gestante ao local do parto. A literatura científica demonstra que o desconhecimento dos fluxos de urgência e das rotinas assistenciais da maternidade de referência por parte dos profissionais da APS gera atrasos decisivos no atendimento de intercorrências obstétricas. Ao proporcionar o reconhecimento in loco do ambiente hospitalar por residentes e profissionais da atenção primária, o ciclo de visitas em Dourados rompe barreiras comunicacionais e promove o alinhamento das práticas clínicas fundamentadas nas melhores evidências disponíveis.
A incorporação das diretrizes da Rede Alyne, combinada com a inserção de residentes de Enfermagem Obstétrica e Medicina de Família e Comunidade nos cenários práticos, atua como indutora de mudanças no modelo assistencial vigentes na Região Centro-Oeste. Segundo dados da Organização Pan-Americana da Saúde, o combate às causas evitáveis de morbimortalidade materna exige não apenas investimento infraestrutural, mas principalmente a qualificação do trabalho multiprofissional e o fim de práticas intervencionistas desnecessárias durante o trabalho de parto. A presença do HU-UFGD como hospital de ensino e referência regional amplia a capacidade de transposição do conhecimento acadêmico para o cotidiano das Unidades Básicas de Saúde (UBS), fortalecendo a identificação precoce de gestações de alto risco e o acompanhamento longitudinal no pós-parto imediato e tardio.
A análise do impacto das ações integradas promovidas em Dourados evidencia que a consolidação da Rede Alyne depende visceralmente da intersetorialidade e da cooperação entre os entes de ensino, serviço e gestão. A atuação conjunta da SEMS, do HU-UFGD e da Fiocruz exemplifica como a formação em saúde orientada pelo trabalho integrativo pode qualificar os processos assistenciais do Sistema Único de Saúde (SUS) no nível local. Contudo, a sustentabilidade dos avanços observados nas redes de atenção à saúde materna e infantil exige a superação de desafios crônicos, tais como a fixação de profissionais especializados em regiões do interior do país, a manutenção regular das instâncias de pactuação interfederativa e o financiamento contínuo das ações de educação permanente no SUS.