A diabetes mellitus representa um dos maiores desafios de saúde pública global contemporâneos, caracterizando-se por alterações metabólicas que impactam progressivamente diversos sistemas do organismo humano. Entre as complicações micro e macrovasculares associadas à doença, a neuropatia e a vasculopatia periférica configuram fatores determinantes para o surgimento de úlceras nos membros inferiores, condição conhecida clinicamente como pé diabético. No âmbito da Atenção Primária à Saúde, a identificação precoce das alterações sensoriais e circulatórias emerge como a estratégia central para conter as taxas de morbidade e evitar desfechos incapacitantes, como amputações não traumáticas. Reforçando essa diretriz de intervenção preventiva, no dia 9 de outubro, a residente R1 de Fisioterapia Gabriely, vinculada à Unidade Básica de Saúde Ildefonso Pedroso, e a preceptora de Fisioterapia da Unidade Básica de Saúde Maracanã integraram uma capacitação técnica dedicada à padronização da avaliação do pé diabético, ressaltando a relevância da qualificação continuada do corpo profissional no Sistema Único de Saúde (SUS).
A fisiopatologia do pé diabético envolve uma tríade complexa composta por neuropatia periférica, deformidades estruturais e trauma externo, muitas vezes agravada pela doença arterial periférica. A perda da sensibilidade protetora dolorosa e térmica impede que o indivíduo perceba microtraumas diários causados por calçados inadequados ou pela pressão plantar excessiva em pontos de hiperpressão. Conforme apontam os referenciais do Ministério da Saúde e as diretrizes internacionais da Organização Pan-Americana da Saúde, a triagem sistemática do pé em risco exige a aplicação de testes semiológicos específicos, incluindo a avaliação da sensibilidade tátil com o monofilamento de nylon de 10 gramas, a aferição da sensibilidade vibratória por meio do diapasão de 128 Hz e a palpação minuciosa dos pulsos pedioso e tibial posterior. A incorporação desses exames à rotina diagnóstica da Estratégia Saúde da Família viabiliza o rastreamento antes da instalação de lesões teciduais irreversíveis.
Na rotina operacional das equipes de Saúde da Família, a inserção da fisioterapia no diagnóstico funcional do pé diabético expande as possibilidades de intervenção preventiva e reabilitadora. Além da testagem sensoriomotora, a análise biomecânica da marcha e da distribuição das cargas plantares permite antecipar áreas de risco iminente de ulceração. A atuação fisioterapêutica atua diretamente na preservação da amplitude de movimento articular do tornozelo e do pé, no fortalecimento da musculatura intrínseca e na orientação sobre a adequação do calçado. A integração desses profissionais ao cuidado continuado reforça o princípio da integralidade do SUS, transformando o exame clínico periódico em um momento de educação em saúde, no qual o autocuidado supervisionado é fortalecido para reduzir a incidência de calosidades e fissuras precursoras de feridas.
A consolidação de treinamentos e atualizações contínuas para profissionais e residentes da Atenção Primária reflete uma mudança paradigmática necessária na gestão da saúde pública brasileira. O impacto econômico e social do pé diabético não tratado precocemente reflete-se em internações prolongadas, custos elevados com curativos de alta complexidade e perda severa da autonomia funcional dos pacientes. A expansão da capacidade analítica das equipes da Atenção Básica para classificar o risco ulcerativo segundo consensos científicos consolidados constitui o meio mais eficaz para reduzir a pressão sobre os níveis secundário e terciário de atenção. Fortalecer as ações preventivas nos territórios de saúde pública consolida-se, portanto, como a medida mais eficiente para mitigar as sequelas da diabetes e assegurar a qualidade de vida da população assistida pelo SUS.