A atenção à saúde das pessoas com diabetes mellitus exige estratégias integradas que ultrapassem os limites físicos das unidades básicas de saúde, demandando uma presença ativa dos profissionais no território comunitário. Entre as complicações crônicas associadas à hiperglicemia prolongada, o pé diabético figura como uma das causas mais frequentes de internação hospitalar e amputações de membros inferiores no Sistema Único de Saúde. Essa condição decorre da interação entre a neuropatia periférica, a doença arterial periférica e as deformidades estruturais dos pés, fatores que aumentam substancialmente a vulnerabilidade à formação de úlceras e a infecções graves. Nesse cenário, as ações domiciliares e de busca ativa assumem papel determinante para a identificação precoce do risco ulcerogênico, garantindo a intervenção oportuna antes do surgimento de lesões complexas.
A prática desenvolvida por enfermeiras residentes da Unidade Básica de Saúde Parque do Lago II exemplifica a aplicação direta da vigilância em saúde no ambiente domiciliar. A realização do exame físico sistemático dos pés durante as visitas no território permite aplicar diretrizes clínicas consagradas em um contexto onde a adesão ao autocuidado é influenciada pelas determinantes socioeconômicas e familiares. A avaliação clínica fundamenta-se no rastreamento da perda da sensibilidade protetora por meio do monofilamento de semmes-weinstein de dez gramas, na análise da circulação arterial periférica via palpação dos pulsos pedioso e tibial posterior, e na inspeção minuciosa da integridade cutânea e de deformidades ósseas. Essa abordagem descentralizada aproxima a evidência científica da realidade cotidiana do usuário, superando as barreiras de acesso enfrentadas por pacientes com mobilidade reduzida.
No âmbito da Estratégia Saúde da Família, a categorização do risco de ulceração orienta o plano terapêutico e a periodicidade do acompanhamento multiprofissional. Conforme as diretrizes da Organização Pan-Americana da Saúde e do Ministério da Saúde, o rastreamento deve categorizar o paciente desde o risco zero, caracterizado pela ausência de neuropatia, até o risco três, no qual há histórico de ulceração ou amputação prévia. O cuidado continuado no território possibilita orientações educativas personalizadas sobre a escolha de calçados adequados, a higiene diária, o corte correto das unhas e a identificação de sinais de alarme. O vínculo estabelecido no domicílio fortalece a autonomia do indivíduo e estimula o engajamento da família no processo de cuidado, elementos cruciais para a mitigação de danos e para o controle metabólico efetivo.
Sob a perspectiva da saúde pública brasileira, a consolidação de práticas territoriais de avaliação do pé diabético reflete a capacidade transformadora da atenção primária na redução de custos hospitalares e na preservação da qualidade de vida da população. A atuação da residência em enfermagem nesse contexto reafirma o valor da formação em serviço para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde, integrando o ensino, a pesquisa e a assistência direta. No entanto, o impacto de longo prazo dessas ações depende da garantia de sustentabilidade das equipes de Saúde da Família, do provimento contínuo de insumos para diagnóstico e curativos, e da articulação fluida com os níveis secundário e terciário de atenção. A prevenção das complicações do diabetes no território não constitui apenas uma conduta técnica, mas uma diretriz central para a equidade e a eficiência da rede de atenção à saúde.