A reorientação do modelo assistencial na Atenção Primária à Saúde (APS) exige superar as práticas meramente prescritivas e curativistas que historicamente caracterizaram os serviços de saúde. A experiência desenvolvida na Unidade Básica de Saúde Ildefonso Pedroso com a realização do Grupo Roda dos Saberes reflete a operacionalização das diretrizes da Política Nacional de Educação Popular em Saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde (PNEPS-SUS). Ao constituir um espaço estruturado de acolhimento, convivência, escuta qualificada e troca de experiências entre a comunidade e a equipe multiprofissional, a iniciativa desloca a atenção à saúde de uma lógica verticalizada de transmissão de informações para uma construção compartilhada do cuidado e da autonomia dos sujeitos.
A transição demográfica e epidemiológica vivida pelo Brasil, marcada pela predominância das condições crônicas não transmissíveis e pelo envelhecimento populacional, demanda tecnologias leves de cuidado centradas no vínculo, na subjetividade e na determinação social da saúde. No ambiente do grupo horizontal, a escuta atenta das trajetórias de vida e dos conhecimentos populares sobre o corpo, a enfermidade e os tratamentos caseiros não é tratada como um obstáculo ao conhecimento científico, mas como o ponto de partida para a problematização da realidade. Essa inversão epistemológica fortalece o sentimento de pertencimento do usuário ao serviço, reduz as barreiras de acesso atitudinais e favorece a adesão terapêutica, uma vez que as estratégias de prevenção e promoção da saúde passam a fazer sentido no cotidiano singular daquele território.
No plano da organização do trabalho em saúde, espaços como a Roda dos Saberes atuam como indutores da clínica ampliada e da interdisciplinaridade. A interação direta dos diversos profissionais com a comunidade fora da rigidez da consulta individual permite identificar demandas subjetivas e sociais que frequentemente permanecem invisibilizadas nos diagnósticos estritamente biomédicos. De acordo com a literatura especializada sobre o tema, a vivência coletiva e dialógica na Atenção Básica amplia a capacidade resolutiva da equipe ao integrar as dimensões afirmativas e culturais do território aos projetos terapêuticos singulares. O encontro torna-se, assim, um ambiente de gestão participativa e de corresponsabilização, no qual profissionais e usuários reposicionam-se como sujeitos ativos do processo de produção de saúde.
A consolidação de práticas pautadas no diálogo horizontal na Atenção Primária reafirma o papel do SUS como um sistema não apenas universal na oferta de serviços, mas pautado na equidade e na humanização do cuidado. A sustentabilidade dessas ações depende do reconhecimento institucional da Educação Popular em Saúde como uma metodologia de trabalho indispensável para a transformação dos processos de trabalho e para o fortalecimento do controle social. A continuidade do Grupo Roda dos Saberes na UBS Ildefonso Pedroso demonstra que o fortalecimento da Atenção Básica passa necessariamente pela valorização do saber comunitário e pelo resgate da dimensão relacional do ato de cuidar, pilares fundamentais para a consolidação de uma rede de atenção verdadeiramente democrática e orientada às necessidades da população.