A adolescência representa uma fase do desenvolvimento humano caracterizada por profundas transformações biológicas, psíquicas e sociais, exigindo estratégias de atenção à saúde que transcendem o modelo biomédico tradicional. No âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), a Atenção Primária à Saúde (APS) consolida-se como o espaço privilegiado para o desenvolvimento de ações preventivas e de promoção da saúde dirigidas a esse público. A experiência recente promovida pela Unidade Básica de Saúde (UBS) Jóquei Clube, por meio da realização de um Grupo de Adolescentes nas dependências da Associação Maria Paraguaia, evidencia a relevância pedagógica e assistencial da integração entre o serviço de saúde e os equipamentos comunitários no território.
A vulnerabilidade social e as dinâmicas biopsicossociais complexas vivenciadas pelos jovens demandam intervenções transversais que abranjam a diversidade do cuidado. A atuação conjunta de residentes das áreas de Psicologia, Fisioterapia e Nutrição durante a atividade no território permitiu a construção de uma abordagem interprofissional e cooperativa, alinhada aos preceitos da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) e da Diretriz Nacional para a Atenção Integral à Saúde de Adolescentes e Jovens na Promoção, Proteção e Recuperação da Saúde. A convergência desses núcleos de saber viabilizou um espaço dinâmico de escuta qualificada, no qual aspectos do desenvolvimento corporal, da alimentação saudável e da dimensão emocional foram debatidos sob uma perspectiva integrada, superando a fragmentação do cuidado.
Sob a ótica da saúde coletiva, a ocupação de espaços comunitários não institucionais, como a Associação Maria Paraguaia, desempenha um papel crucial no fortalecimento do vínculo entre a equipe de saúde e a população jovem. O ambiente comunitário reduz as barreiras institucionais habitualmente associadas às unidades de saúde, propiciando um espaço de convivência democrático e horizontal. A literatura científica aponta que a criação de grupos operativos voltados para a juventude favorece a construção do autocuidado apoiado, o fortalecimento das redes de apoio social e a promoção do protagonismo juvenil na identificação e no enfrentamento de suas próprias demandas de saúde.
A incorporação das residências em saúde no cotidiano das unidades básicas constitui uma ferramenta primordial de formação profissional orientada pelas necessidades do SUS. A vivência prática das residentes de Psicologia, Fisioterapia e Nutrição em uma intervenção comunitária fomenta o aprendizado da práxis interprofissional e estimula o desenvolvimento de competências voltadas para a determinação social do processo saúde-doença. As trocas pedagógicas e terapêuticas ocorridas durante o encontro grupal reforçam o princípio da integralidade do cuidado, uma vez que a dimensão motora e funcional cuidada pela Fisioterapia, o aspecto nutricional e metabólico abordado pela Nutrição e a subjetividade trabalhada pela Psicologia encontram-se indissociavelmente conectados no cotidiano dos sujeitos.
Os impactos de iniciativas com esse perfil na saúde pública brasileira são expressivos, pois atuam diretamente na redução da morbimortalidade associada a fatores de risco modificáveis e a agravos à saúde mental na adolescência. No cenário socioeconômico contemporâneo, marcado por transformações nos hábitos de vida e pelo aumento de sofrimentos psíquicos entre os jovens, a consolidação de estratégias territoriais de promoção da saúde reduz a sobrecarga das instâncias de atenção especializada e promove a equidade no acesso aos serviços. Fortalecer as ações grupais e a articulação comunitária na APS reafirma a centralidade da Atenção Primária como ordenadora da rede de atenção e reafirma o compromisso ético e político com a garantia do direito à saúde para as futuras gerações.