A reconfiguração da Atenção Primária à Saúde (APS) no Brasil tem exigido modelos de intervenção que superem a fragmentação assistencial e a histórica centralização biomédica. Nesse cenário, a incorporação de ações fisioterapêuticas no âmbito da Estratégia Saúde da Família (ESF) desponta como um vetor decisivo para a promoção da funcionalidade humana e a prevenção de incapacidades na comunidade. A atuação da residente Marta na Unidade Básica de Saúde (UBS) Parque do Lago II exemplifica a operacionalização desse paradigma, em que a práxis fisioterapêutica deixa de ser estritamente reabilitadora e tardia para se consolidar como um dispositivo transversal de acompanhamento longitudinal e cuidado integral junto aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).
A fundamentação teórica que sustenta essa integração fundamenta-se nas diretrizes da Política Nacional de Atenção Básica e nos preceitos da Organização Pan-Americana da Saúde, os quais preconizam a resolutividade dos serviços de saúde no território de vida dos sujeitos. Historicamente associada ao ambiente hospitalar ou a centros especializados de média e alta complexidade, a fisioterapia passa a ressignificar seus objetos de estudo e intervenção ao adentrar a APS. Sob a ótica da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), proposta pela Organização Mundial da Saúde, a saúde deixa de ser avaliada meramente pela ausência de doença, passando a incorporar a interação dinâmica entre as condições de saúde e os fatores ambientais e pessoais. Assim, a presença da residente no cotidiano da UBS Parque do Lago II permite a identificação precoce de alterações cinesioperfisionais, o manejo adequado de dores crônicas miosqueléticas e a prevenção do declínio funcional em idosos, mitigando o encaminhamento desnecessário para níveis secundários de atenção.
A metodologia assistencial desenvolvida nessa experiência pauta-se no apoio matricial e no trabalho interprofissional, elementos centrais para o fortalecimento do vínculo terapêutico na Atenção Primária. A atuação da fisioterapeuta no território possibilita o planejamento conjunto de Projetos Terapêuticos Singulares (PTS) ao lado de médicos, enfermeiros, agentes comunitários de saúde e demais membros da equipe multiprofissional. Essa sinergia amplia o escopo das ações de promoção da saúde, permitindo que as abordagens ergonômicas, os grupos de educação em saúde e as visitas domiciliares considerem as determinantes sociais e ambientais que afetam a mobilidade e a qualidade de vida da população adscrita. A prática baseada em evidências demonstra que a intervenção fisioterapêutica precoce reduz os índices de polypharmacy relacionados ao manejo analgésico e favorece a autonomia do indivíduo no autocuidado.