No cotidiano da Unidade Básica de Saúde Maracanã, a inserção das residências em Enfermagem e Fisioterapia estabeleceu um ponto de virada na padronização da avaliação de pessoas com diabetes mellitus. Por meio da aplicação sistemática de testes de sensibilidade tátil com o monofilamento de semmes-weinstein de dez gramas, testes de sensibilidade dolorosa e térmica, somados à palpação dos pulsos pedioso e tibial posterior, os residentes identificam precocemente os graus de risco de ulceração de acordo com as diretrizes internacionais. A articulação entre as categorias profissionais permite a convergência de olhares específicos e complementares. Enquanto a Enfermagem foca no rastreio neuropático, na identificação de lesões dermatológicas preliminares, no manejo das feridas e no autocuidado contínuo, a Fisioterapia atua na análise biomecânica da marcha, no rastreio de deformidades osteoarticulares e no direcionamento de condutas para a preservação da mobilidade e redistribuição de pressões plantares.
A consolidação dessa rotina assistencial revela a importância de conectar o referencial teórico-científico às particularidades socioeconômicas dos usuários atendidos na atenção básica. A prática conjunta transcende o ato meramente técnico de preenchimento de fichas de rastreio, convertendo-se em um espaço educativo intersetorial. Durante as consultas, os residentes trabalham a educação em saúde adaptada à realidade da comunidade, orientando sobre a inspeção diária dos pés, a higienização e secagem adequadas, a escolha correta de calçados fechados e sem costuras internas, e a busca imediata por atendimento assistencial diante do surgimento de qualquer solução de continuidade na pele. A presença de residentes de diferentes especialidades fortalece a tomada de decisão clínica no próprio ponto de atenção, reduzindo os encaminhamentos desnecessários para a atenção secundária e aumentando a resolutividade do cuidado.
Sob a perspectiva da saúde pública brasileira, a atuação integrada da Enfermagem e da Fisioterapia no rastreio do pé diabético na Unidade Básica de Saúde Maracanã evidencia o potencial transformador dos programas de residência em área profissional da saúde. A despeito do sólido respaldo científico que comprova a eficácia da avaliação sistemática dos pés na diminuição expressiva de amputações, a implementação dessa rotina no SUS ainda enfrenta obstáculos estruturais, como a escassez de insumos básicos, a alta demanda reprimida e a rotatividade de profissionais. O fortalecimento da formação interprofissional durante a pós-graduação lato sensu posiciona-se como um vetor de reestruturação dos processos de trabalho. Promover uma assistência preventiva rigorosa, fundamentada em evidências científicas e pautada na integralidade, consolida a Atenção Primária à Saúde como ordenadora da rede e defensora da autonomia e integridade física das pessoas que vivem com diabetes.