Poucos temas exigem tanto preparo técnico e sensibilidade das equipes de saúde quanto o enfrentamento da violência contra a mulher. Na Atenção Primária à Saúde (APS), porta de entrada preferencial do Sistema Único de Saúde (SUS), esse desafio se apresenta de forma cotidiana: é nas unidades básicas que muitas mulheres chegam com queixas aparentemente isoladas, como dores persistentes, sofrimento emocional ou dificuldades no acompanhamento de outros agravos, sem que a violência seja nomeada logo no primeiro contato. Por estar presente no território, conhecer as famílias e construir vínculos longitudinais, a equipe de saúde ocupa uma posição privilegiada para reconhecer sinais, acolher relatos e encaminhar cada situação com responsabilidade.
É nesse contexto que se insere a atividade realizada pela UBS Jóquei Clube: um canal teórico sobre o manejo de casos de violência contra a mulher, conduzido pela nutricionista residente Isadora e pela psicóloga residente Marian. A iniciativa reuniu o grupo de residentes em um espaço de estudo e conversa, voltado a qualificar a escuta e a conduta dos profissionais diante de um problema que atravessa a vida de muitas usuárias do território.
A ação e a participação do Viva Mulher
O encontro contou com a presença de Kelly e Bárbara, integrantes da equipe do Viva Mulher, serviço especializado de referência no atendimento às vítimas de violência. A participação das convidadas trouxe à discussão a perspectiva de quem atua diretamente na ponta especializada da rede de proteção. Durante a atividade, elas compartilharam experiências com os residentes e apresentaram orientações sobre o funcionamento do serviço e sobre o modo como ele se articula com os demais pontos de atenção.
A conversa percorreu temas centrais para o cuidado: o acolhimento das mulheres em situação de violência, a psicoeducação, os fluxos de atendimento em situações de urgência e a importância da articulação entre os diferentes serviços envolvidos. Esses assuntos dialogam com um princípio amplamente reconhecido nas políticas públicas brasileiras de saúde: nenhum serviço, isoladamente, é capaz de dar conta da complexidade da violência. Saber para onde encaminhar, como e em que momento, é tão relevante quanto saber escutar.
Outro ponto trabalhado foi a necessidade de enfrentar comportamentos e concepções machistas que contribuem para a naturalização da violência. Trata-se de uma reflexão que ultrapassa o protocolo técnico, pois lembra que a violência de gênero tem raízes culturais e sociais e que os próprios profissionais de saúde, como pessoas inseridas na sociedade, precisam examinar suas percepções para que não reproduzam julgamentos ou minimizem relatos. A reflexão fortalece estratégias de prevenção, proteção e cuidado no território.
O papel da Atenção Primária e o trabalho em rede
A APS organiza-se em torno de atributos como o primeiro contato, a longitudinalidade, a integralidade e a coordenação do cuidado. Todos eles são mobilizados quando uma equipe se depara com uma situação de violência. O primeiro contato exige um ambiente de confiança, no qual a mulher se sinta segura para falar. A longitudinalidade permite acompanhar a pessoa ao longo do tempo, observando mudanças e retomando o diálogo quando ela estiver pronta. A integralidade lembra que o cuidado não se limita ao tratamento de lesões físicas, abrangendo a saúde mental, a vida familiar e as condições sociais. Já a coordenação do cuidado reforça o papel da unidade básica como articuladora da rede, assegurando que o encaminhamento a serviços especializados, como o Viva Mulher, aconteça de forma qualificada e sem que a usuária precise repetir sua história a cada porta.
Nesse sentido, momentos de formação como o realizado na UBS Jóquei Clube cumprem uma função estratégica. A rede de proteção só funciona quando seus pontos se conhecem, compreendem as atribuições uns dos outros e dialogam com clareza. Ao receber representantes de um serviço especializado, a equipe da unidade aproxima-se da realidade desse serviço e passa a entender melhor quais situações demandam encaminhamento, quais exigem resposta imediata e como organizar o fluxo para que a mulher seja protegida.
Importância para o território e para a formação dos residentes
Para o território, a qualificação da equipe tem efeito direto na qualidade do cuidado. Profissionais mais preparados tendem a oferecer uma escuta mais atenta, a reconhecer com maior segurança os sinais de que algo não vai bem e a agir de modo coordenado. Isso significa mulheres mais bem acolhidas, menos expostas a situações de revitimização e com maiores chances de acessar a rede de proteção no momento necessário. Além disso, a abordagem do tema dentro da unidade contribui para que a violência deixe de ser tratada como assunto privado e passe a ser compreendida como questão de saúde pública, que demanda ações de prevenção e cuidado em âmbito comunitário.
Para os residentes, a atividade representa um exemplo concreto de educação permanente em saúde, estratégia que reconhece o cotidiano do trabalho como lugar de aprendizagem. Chama atenção, ainda, o fato de o canal ter sido conduzido por uma nutricionista e uma psicóloga residentes, o que ilustra a lógica multiprofissional do programa de residência: núcleos de saber distintos que compartilham responsabilidades e constroem juntos o conhecimento necessário para o cuidado. Ao assumir a condução de um espaço formativo, as residentes exercitam também a capacidade de ensinar, de organizar conteúdo e de mediar discussões, competências valiosas para quem atuará na Saúde da Família.
A convivência com profissionais de um serviço de referência, por sua vez, amplia o repertório dos residentes. Ouvir relatos de prática, conhecer o funcionamento do serviço e discutir fluxos reais de atendimento aproxima a teoria da rotina, preparando os futuros profissionais para situações em que haverá pouco tempo para decidir e muita responsabilidade envolvida.
Conclusão
A atividade realizada na UBS Jóquei Clube mostra como a formação em serviço pode se converter em instrumento de transformação do cuidado. Ao reunir residentes e profissionais do Viva Mulher para discutir acolhimento, psicoeducação, urgências e articulação em rede, o encontro contribuiu para preparar os profissionais para uma atuação mais acolhedora, responsável e articulada, fortalecendo o cuidado às mulheres na Atenção Primária à Saúde. Enfrentar a violência exige, ao mesmo tempo, conhecimento técnico, trabalho em rede e disposição para questionar concepções que a sustentam. Ações como esta, que unem estudo, diálogo e compromisso com o território, reafirmam o papel do SUS e da APS na defesa da vida e dos direitos das mulheres.
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